quinta-feira, 2 de julho de 2009

A criança do homem pousado

(Tomé Duarte)

Estamos muito mais descontraídos,
as imagens já devoraram a mente
que tinha para devorar, o corpo
já cedeu à tentação de desenhar
formas e o indomável ser
despenha-se noutro corpo
despenhado há tempo.

Estamos muito mais
relaxados. O dínamo de ser
criança já lá vai, extinguiu-se
quando deixamos de pedalar
na vida. Não vejo nada, não
digo nada, não centrifugo nada
que não seja este cair em cima
de ti, humana de veia fervente.

Esta vida é uma paisagem
truculenta em ti. As musas
morrem sempre antes do artista
cegar a arte; as inspirações disparam
em linhas, o eu – sim, o eu – descende por bocas
até bem
ao fundo.

Musa morta, relaxo eu agora. Tudo
faísca em meu redor. Fumo
em abundância por aqui,
onde os furos de onde
ecoa (seria
um erro

escrever escoa) o sangue da artéria
têm o nome de ralos radiais. Verdade, morro
por um nome que aprendi na televisão: radial.

Fica
o que não dói, fica nada. Levo o alimento
com o final
deste põema radial.
Este não ferve,
fica o põe
ma a marinar em lume brando até não
estar tão relaxado, ou,
até a, ou até, ou

até a musa acordar.
******

pedro s. martins

5 comentários:

gabriela piccini disse...

Quizás sea cierto, las musas mueren antes que el artista, de alli la desesperación.

Un abrazo

Miguel Barroso disse...

As musas vão e vêm, o escritor fica.

tiago sousa garcia disse...

"Este não ferve,
fica o põe
ma a marinar em lume brando"

há que deixar o poema repousar, sim.

Pedro S. Martins disse...

tiago, essa parte do poema é para exemplificar a decomposição do "põema".

Parece um erro, mas é "Põe
ma" :)

Abraço,
pedro

tiago sousa garcia disse...

sim pedro, eu percebi. foi, precisamente, isso que me puxou para aquele verso. brilhante.

abraço,

tsg.