quarta-feira, 22 de julho de 2009

Compasso em espera

"estar aí, no aberto vulnerável à ruína de todas as paisagens interiores,
é estar na margem permanente do medo"...
in biografia de al berto . golgona anghel

Para que cedo viesses,
recuperei a penugem do
caminho gasto em folhas castanho-velho.
Era tempo de cerejas e pássaros:
eu florescia finalmente na quimera do verde vivo.
Não era uma magnólia,
nem a busca do doce
e suas antíteses que me moviam,
era a evidente verdade:
sem ti o meu corpo era um barco condenado ao seu naufrágio.

Foi por isso que passaram estes milénios
onde Sherazade se reinventou:
passou de histórias a novelos
e tricotou um longo cachecol
para agasalhar o medo.
Em nada temeria o Inverno,
não fossem as rugas abertas nos dedos que oscilavam
a cor dos pigmentos do sangue.
Fizera-me estátua de espera,
sentara-me.
Entre os deuses,
continuava a preferir-me mulher.
Tu, homem-árvore,
cresceras-me por dentro,
semando raízes.
É inalcançável a célula através da qual te multiplicas.
Compro a viagem,
tenho um passaporte de cá para lá,
posso dizer-te sem metáforas:
conheço os lados geométricos do mundo,
mas és um anti-hemisfério,
ocupas a galáxia, corrompes-lhe o movimento,
tens uma hora certa, num dia longo.
No calendário onde te risco,
insistes em aparecer:
és a folha que não se rasga...
Homem ou árvore, a minha metáfora é a minha sede e cabe num copo.
Nunca te menti,
sou de excessos,
Bebo café, mastigo sal,
sem sabor sinto-me nua,
mas aprendi o pragamatismo,
coloco pontos nos iiiisss,
pontas nos pés e danço, danço, danço...
sou uma bailarina a inventar sonetos,
a compor sonatas, a perder-se no sono.
És uma noite que ficou por dormir.
Tenho coisas nos bolsos que diminuem,
que se encolhem,
pesam menos do que eu.
A minha casa é um lugar que não sei dizer.

Este é o relato da viagem onde fui marinheiro e gato.
Freud retalhou a psicanálise e colou-se ao meu pescoço.
Arranho o livro,
parece diferente e dilacerado,
mas as linhas são as mesmas e são muitas.
Com elas meço o destino,
coso os pés às meias,
costuro a pele por cima do vestido.
Transcrevo-te do livro, nomeio-te:
PEREGRINO DAS LÍQUIDAS ESTRELAS
(o peregrino tem a consistência do seus hábitos).

Levas-me de novo aquela casa?
O que fizeste à nossa?
Quero saber do teu avô e dos corpos que ele emoldurou em livros.
(e tu respondes-me num poema antigo: "parti porque a casa estava vazia")
Ou então:
queimemos a casa,
tu serás pai de um noticiário qualquer.
Repetes a mulher.
Na verdade, eu vi sempre a casa do lado de fora da janela.

Ou então:
não me abandones,
a noite é escura
e eu gosto de te rir.
Colemos os mosaicos dispersos,
quero ser vitral ou clarabóia,
um lugar de luz.

No fundo ainda te inspiro,
quando te soltas de mim
transformas-te sempre em tentativa de poema.
Eu era-me para ti.
Descansa, não voltarei a escrever-te alto.

5 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

maravilha!!!!!!

Jorge dos Santos disse...

rapaz..essa foto no título do blog é desesperadora. viva a verdade! e que a mão não trema..

vim convidá-los a visitar um blog de poesias visuais que estou inaugurando.

http://amaquinadaspalavras.blogspot.com/

abraços

Marta disse...

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Anónimo disse...

... beautiful ...

Anónimo disse...

esta puta não se lava