segunda-feira, 29 de junho de 2009

quietude da aragem

(Juan Muñoz)

Nascendo com as cores
da fuligem, edifico-me
na espessura do choro
que emprenha as letras.

Apagarão o meu nome em breve. De que vale
uma árvore bela
se está
plantada no lugar da ausência? O meu
odor é a desilusão

e tu não estás a ser tudo. Despenho-me
em ti, rapariga do sul. E já não cantámos,
passámos pelo sorriso sorrateiramente
quando tudo nos obrigava a parar
e contemplar. Passámos pela ascensão,
pela expressão, e fica apenas o sotaque
das nossas
pegadas.

Terás perdido o encanto? Terei ficado
aborrecido excedendo
cadavérico,
homem-esquelético rasgado

no arame farpado do amor
circular? Sei a resposta
desde que fomos nascendo
da fuligem
para a inábil maneira
de viver com a cabeça
desamparada de competências.

Esquece o poema, inala o cheiro
vertente dos meus olhos e morre
na pele da minha
garganta. Extinção do
hostil eco.
******

pedro s. martins

6 comentários:

C-ASA disse...

Gosto de te ler, enquanto o texto -o teu, através dos teus olhares atentos- se despenha dentro de mim, causa o calafrio comum, que torna inútil dividir mundo em hemisférios.

Sobre as incompetencias, acrescentos inabilidades...fogo ou água sempre em descontrolo..
(escuto o teu eco faz hoje um bilião de anos. é-te ancestral o correr do poema..)

tiago sousa garcia disse...

"esquece o poema"

admito, tudo o que for metalinguagem conquista-me.

cheers

Poesias e Canções disse...

Como podemos achar tanta beleza mesmo em meio a dor e a solidão?
Como podemos ser inspirados e inspirar ainda que com saudades de alguém?

Como é complexo ser gente!
como é maravilhoso.
Fico cada dia mais fascinada pelo ser humano que parece mais alma do que qualquer outra coisa!

O amor nos impulsiona de fto;a viver ;a sofrer e também ser feliz ainda que com saudades ou com dores de garganta!rs
Gostei de estar aqui!
Lembrou-me um amigo das rosas que segundo ele não falavam!rsrs

gabriela piccini disse...

no arame farpado do amor
circular? Sei a resposta
desde que fomos nascendo
da fuligem
para a inábil maneira
de viver com a cabeça
desamparada de competências.


Impecable!

Pedro S. Martins disse...

Muito obrigado.

Miguel Barroso disse...

pois, não dá é para esquecer este poema. muito bom.