quinta-feira, 29 de abril de 2010
esquerdino
terça-feira, 14 de julho de 2009
poema-dental
oh! areia tumulto que espraias.
Houvesse cedilha e dava piça
bronzear dunas sob minissaias.
Cavalo de tróia adentrando Helena
bandeira verde na alma da pequena
estendo toalha acendo fornalha.
Que bem trabalha a tua tralha morena.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Sem tir
eu não era camionista.
De emprego em emprego a sair,
nem carpinteiro nem pianista,
nem sinaleiro nem malabarista,
nem rasteiro nem comedor de alpista...
Não seria feliz o porvir
sem o amor à segunda, talvez terceira vista
que me estimulou a insistir
me derramou no alpatrão da autopista
e me fez prosseguir.
E hoje, quando o trailer dista,
são saudades que estou sem tir.
Acredito que não exista
outro amor assim no mundo real revista
da socialaite de amor-tecedores no ir e no vir
se acaba todo mundo por se trair.
Por onde a estrada seguir
tornando-se no horizonte singela risca
nunca alguém me verá sem tir.
Desistir?
Não sou tipo que desista.
Polícia algum me pode proibir
de guiar, guiar enquanto nas mãos tiver faísca.
Sonho que conduzo quando durmo a conduzir
pesadela-me acordado o que sentiria sem tir
: oh! excomungado camionista.
Assobiar a minissaia daquela francisca,
projectar artisticamente pela janela a prisca,
atropelar a vaca, o país, a sardanisca,
no altar do terço, miss mamalhuda e futebolista,
com paragem para arroz de feijão e patanisca,
sinceramente camião espantado de existir
sobre rodas enquanto a morte não belisca.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Vida Animal
sou do tempo em que os animais sonhavam. nem sempre
sonhar cegou como um cancro silencioso. sou do tempo,
como outros são de alguém com muralhas ou de um lugar
ao qual inventaram fome. peso aproximadamente 37 gramas
na colher com que deus rapa as cidades nos dias em que a
fé insaciável corre perigo. já amei os animais em contraluz.
e um animal que podia ver-se claramente. sonhei-o no limiar
do apodrecer furtivo das carnes. já descarnei o amor com
o cutelo das palavras. afiei os gumes lustrosos do silêncio
na pedra dos ossos. o sangue cristalizando à solidão. e era
noite cortante no poço da memória quando o ventre azul
das nuvens se precipitava no espanto agoniado das asas. já
me banqueteei na intangível estupidez ufana dos anjos. eu
já me perdi. atirei pedras ao coração quando ninguém via.
já estive ocupadíssimo à espera de amanhã. sou do tempo
que nunca chega. sou da espécie de fantasmas que se senta
no sentido inverso da marcha dos transportes. já vi a vida
andar para trás, acreditando haver tesouros lá no fundo das
crianças. conheci pela primeira vez o som da mão quando
me agarraste pelo poema. perdi tudo na reviravolta violenta
do horário de saída do coração. eu sou do tempo em que os
animais já não arranjam trabalho. com uma mão irrompo no
peito próprio e sustenho o coração para saber o que foi. o que
fui. sou da estação em que é fria a reencarnação da mentira.
havia animais debatendo-se convulsivamente como um músculo
de verdade, a morte luzia no escuro quando sonhavam. na mão
restante tenho força para derrubar qualquer animal sorrateiro
aproximado do avesso que sou. do tempo em que cada palavra
se vergava no dealbar da extinção para o nascimento da seguinte.
sou do tempo em que animais perdidos conheciam a posição exacta
da própria ausência. falavam vagarosamente, como se estivessem
para chegar. como se o passado fosse um instinto de sobrevivência.
como se não fossem do tempo. rumina silenciosamente, regurgita
silenciosamente